segunda-feira, 20 de junho de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

Nossas Produções

Prezados cursistas,

Neste espaço, produziremos coletivamente nossa produção 'marginal'!!!

Será bem simples:

1- Iniciarei um texto e vocês darão continuidade ao texto.

2- Escreverá a continuação do texto no link "comentário" localizado logo abaixo desse post como indica a figura:




Dê continuidade a este texto:

"Vou te contar quem eu sou. Tento ser uma pessoa normal, num país normal, em uma sociedade normal. Toda a minha vida mudou quando... "

domingo, 5 de junho de 2011

85 letras e um disparo

-Alô, mô, sou eu!

 - Fernando, o ônibus tá sendo assaltado...

- O quê? Fala mais alto!

- Tão assaltando o ôni...

- Puf.

- Alô!

- Tu tu tu tu...

Sacolinha

FONTE: SACOLINHA. 85 letras e um disparo. São Paulo: GLOBAL, 2007.

Boa noite Cinderela

Muitos são os atos que uma pessoa pratica para ganhar dinheiro. Na terra da garoa não é diferente.
Paulo é empresário, dono de duas grandes lanchonetes. Uma fica no centro de São Paulo e a outra no metrô Itaquera. Ambas com boa movimentação de clientes, fato que o deixa muito satisfeito e às vezes com dor de cabeça.
Ele é solteiro. Atualmente anda alterado demais, pois trabalhar com o público exige muita paciência, além do que, havia três meses que duas funcionárias entraram na justiça contra ele, pois Paulo, ao perceber a gravidez das meninas, despediu-as.
O processo está caminhando, lento, mas está.
Hoje é sexta-feira, e ele tinha acabado de sair da primeira audiência. Na porta do Fórum Paulo ainda ouviu uma das jovens dizer:
- Espero que você comece a perder todo o seu dinheiro, bicho ganancioso de uma figa.
Fez o sinal da cruz afastando aquele rogo de praga e seguiu caminho.
Passou na lanchonete central, recolheu o faturamento do dia e partiu com destino ao bairro da Patriarca, onde mora.
Na avenida Radial Leste, o trânsito está no rastro da tartaruga. O rádio do carro de Paulo anuncia 54 quilômetros de congestionamento em todo o centro de São Paulo. O som que predomina é o das buzinas que ecoam dos carros e se confundem no ar, dando o tom da cidade grande.
O ar poluído e o cheiro de carniça que circula por ali contribuem para que o ambiente se torne insuportável.
É início de noite, e a temperatura atinge vinte e nove graus.
Paulo participa do barulho apertando insistentemente a mão no volante. O ar condicionado não dá conta e o suor escorre em seu corpo. Xingos e murmúrios são colocados para fora.  É o nervosismo e a impaciência que toma conta de Paulo. Ele precisa de um calmante. Calmante que no mínimo três vezes por mês o empresário vai atrás.
Aproveitou a brecha, movimentou o volante e entrou á direita pisando fundo, passando da primeira para a segunda marcha e aí por diante, fugindo do trânsito, adiando sua chegada em casa e indo rumo ao paraíso que há, entre as pernas de uma mulher.
Vinte minutos depois, nas redondezas do Parque do Carmo, ele escolhe o seu calmante entre as mulheres da calçada.
Estacionou no acostamento e sem desligar o carro negociou um programa.
No quarto do motel, ele respira ofegante com o sexo oral que a prostituta pratica nele. Ela que tem cabelos cor de fogo, corpo cheio de curvas e uma tatuagem na barriga. Justo ela que é conhecida no meio das suas amigas de trabalho por deixar o seu cliente nu, literariamente falando. Justo ela que depois de fazer o programa com um cliente abonado, desaparecia por meses, aplicando em cima de outros clientes noutros lugares.
Justo ela Seu Paulo?
A danada já havia estudado a nova vítima. Na hora em que negociavam, ela prestou atenção no carro, no celular e na roupa do empresário. Percebeu também o pacote de dinheiro na hora em que ele pagou a entrada do motel.
“Hora de sumir desse ponto” – Pensou rindo.
Ela é a isca que o peixe fisgou, e como sempre o peixe acaba levando a pior.
Depois de uns dez minutos de sobe-e-desce, Paulo obteve o seu orgasmo e deu um suspiro longo.
A puta tratou logo de agilizar o seu negócio. Na verdade iria começar a trabalhar:
- Nossa, que gostoso! Adorei. Quer casar comigo?
Paulo sorriu. Ela continuou:
- Essa merece um drinque.
Após pedir a bebida, virou Paulo de costas com o pretexto de fazer uma massagem:
- Você está tão tenso.
- Minha vida é que me deixa assim. – Disse ele.
- Relaxa, hoje é sexta-feira.
A bebida foi recebida por ela que, aproveitando o relaxamento de Paulo, depositou no copo dele algumas gotas de um líquido transparente como água.
Brindaram.
Ele bebeu num só gole e deitou novamente pedindo as mãos dela em suas costas.
Paulo relaxa sentindo a massagem. Parece estar nas nuvens... flutuando, flutuando.
Esqueceu de tudo; o caso que caminha na justiça, a praga de sua ex-funcionária, o trânsito, as contas a pagar, os contratos futuros, os clientes, os fornecedores e tudo mais que o preocupava. Agora está curtindo a sensação que corre pelo seu corpo, sente um prazer estranho, um formigamento gostoso nos seus pés que vai subindo devagarzinho, bem devagarzinho até chegar à cabeça.
O empresário nunca sentira isso antes, mas deixou-se dominar.
“Provavelmente é o efeito do sexo” – Pensou ele em grande satisfação.
Aos poucos suas pálpebras foram ficando pesadas, sem resistência... fechando, fechando... dormiu.
A puta se apossou da carteira, do relógio, do celular e da chave do carro. E antes de sair do quarto, beijou a boca de Paulo como forma de agradecimento, e ainda disse:
- Boa noite otário.
E ele dormia, indiferente a tudo. Não dormia um sono de pedra, apenas um sono de cinderela.

Sacolinha

Os pensadores... Do subúrbio

Uma roda humana, uma fogueira, um violão, uma garrafa de vinho e muita maconha.
Não fosse aquele maldito Tobias Aguiar, esses cinco jovens estariam vivos. Se eles não tivessem naquela esquina, aquele dia, aquela hora... Quem foi que inventou o violão?
Quem sabe se o Djavan não tivesse escrito aquela música que os jovens cantavam no momento da abordagem, Flor de lis... Morto na beleza fria de Maria...
Coitadas são as mães, devem estar sofrendo... E o meu jardim da vida, ressecou, morreu...
E a esquina, por que existe, quem foi o vereador, prefeito ou presidente que criou as esquinas? Foram eles? Quem foi?
Se aqueles jovens estivessem trabalhando, ou em alguma outra ocupação...
O que levaram eles a se encontrarem naquela esquina?
Acho que foi o vinho, hum! Aquele gosto doce de uva... Da onde veio a uva?
Da videira. E a videira?
Da semente. E a semente?
Naquela roda os jovens fumavam maconha, foi por isso que a ROTA os abordaram, e também por que os policiais não gostam do violão, por que foi ele que ajudou Geraldo Vandré a compor: “Pra não dizer que não falei das flores”.
Alguns poetas acham que o motivo disso tudo, foi a “noite”, que seduziu os jovens.
O que é a sedução?
É sentimento ou só prazer?
Diz algumas mulheres que sedução não é pra qualquer um, só pra quem ama.
Amor? Da onde veio? Quem é você, que é misterioso ao mesmo tempo em que é popular?
Na sinceridade, o sincretismo dos termos abstratos, foram os causadores dessa tragédia, manipulada pela bebida, a música, a droga e o governo sistemático.
Quais os ideais e os sonhos que esses jovens levaram para o túmulo. Aliás, quem são esses jovens que cantam músicas em protesto contra um tal de sistema?
Que sistema é esse?
Tem integrantes humanos?
Será que a morada da hipocrisia  está aqui?
Confecções, motivos, idéias, consumismo e soluções próprias. Sim, estão pensando, não existem, eles vivem.
A elite já dormiu, enquanto eles ainda vão dormir... Pensativos.
 
Sacolinha


FONTE: http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/22457

Sem lembranças

Ele não lembra mais de mim.
Ele se esqueceu quando entreguei panfletos e carreguei seu nome numa bandeira.
Bati em diversas portas pedindo apoio para sua candidatura. Militei demasiadamente. Comi lanches vagabundos durante dias e perdi meu único tênis.
No dia decisivo, fui um dos primeiros a ver sua foto na máquina. Fui esculachado pela polícia, na frente de dezenas de pessoas, por estar fazendo boca de urna.
E ele não lembra mais de mim.
Dois anos se passaram. Continuo no sufoco.
Acordo cedo, tomo um café ralo e saio de cabeça baixa, procurando latinhas cidade á fora.
Minha mãe trança um cabelo aqui e costura uma roupa ali.
Quando o técnico do time do futebol de várzea traz os uniformes para ela lavar, é sinal que Deus lembrou da gente.
E ele?
Ele não lembra mais de mim.
Sempre esteve por aqui mas o poder é tarefa e ele, por sua vez, se tornou um grande tarefeiro.
O seu transporte agora é avião fretado, quando não, desfila de importado.
E eu, não passo mais debaixo da catraca, cresci, entro pela porta de trás.
Eu visto a miséria e ele, a ostentação.
Ontem fumava cigarro, hoje desfruta de charutos cubanos.
Ele não lembra mais de mim.
Fui preservativo. Meteu-me nas entranhas do povo, e depois de ejacular, me descartou e foi curtir a sensação.
Hoje se veste com malhas e algodão, casimira e sedas italianas. Suas gravatas são da galeria Hernés, de Paris.
Come nomes estranhos, uns vindo do mar, outros dos grandes frigoríficos.
O carteado entre amigos foi substituído por cassinos internacionais.
Ele não lembra mais de mim.
Algum tempo atrás, foi estrategista e filósofo, até profeta, mais um profeta mentiroso.
O tempo vai passar, e ele terá duas, três, ou mais contas bancárias.
Vai adquirir muitos conhecimentos na área em que atua, e na próxima vez, talvez não precise mais de mim. Irá pagar para o mais renomado dos marketeiros, a fim de abocanhar mais e mais votos.
É, e furtará cada vez com maior perfeição as esperanças do povo que insiste em elegê-lo.
Até quando?
Até que existam pessoas como eu que botam fé no cara, enquanto ele, bem ele jamais se lembrará de mim.
Sacolinha


FONTE: http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/94756

Pacífico Homem Bomba

O relógio grita desesperado.
Ronaldo acorda sobressaltado e procura na penumbra de seu quarto o despertador.
Desliga e respira fundo. Quinze para ás três da manhã de uma segunda-feira qualquer.
Ele pensa em aproveitar mais uns cinco minutinhos, mas sabe que o sono será inevitável.
Enquanto escova os dentes lembra do que o seu finado pai dizia em relação ao trabalho: “O trabalho dignifica o homem meu filho”.
Da sua boca surge um conjunto de dentes amarelados cobertos por uma espuma pastosa num sorriso discreto:
- Porra, então eu sou mais do que homem.
Trabalha todos os dias da semana e cada dia num local diferente. Sua função?
É de gritar o nome das frutas da barraca onde trabalha e atende com um sorriso nos lábios e um “muito obrigado” todos os clientes inclusive o mais hostil. Sem esquecer do caminhão cheio de caixas que ele descarrega sozinho, enquanto os seus patrões, um casal de japonês, montam a barraca.
Á noite Ronaldo cursa o supletivo numa escola próxima do seu bairro.
Quando tinha oito anos, seus pais que estavam passando por dificuldades o deixaram na companhia de sua tia, irmã de sua mãe, que morava no Rio de Janeiro. A tia que era de Porto Alegre chegou no Rio com seu marido sem dinheiro nenhum. Dali á oito meses já tinham uma casa e era a mais destacada no local onde moravam.
Ronaldo entrou para a escola e conheceu vários colegas. Estava adorando a vida nova. Era escola, futebol, barriga cheia e muita alegria. Só não entendia porque sua tia dava á ele um pacote para levar todos os dias no morro do Cantagalo. Ela dizia que era cerol. Mas chegou o dia em que a inocência de Ronaldo foi pra debaixo do chinelo e ele acabou descobrindo:
- Pô tia, a senhora me enganou dizendo que era cerol.
- Te enganei não, é que nós chamamos de cerol, é código.
- Mas eu não vou levar mais isso não...
- Que não vai levar o quê, ta pensando que eu vou te sustentar de graça, tem que trabalhar mesmo. E é o seguinte, a partir de hoje acabou a escola pra você, de agora em diante vai trabalhar pra mim e bico fechado.
Foi assim durante três anos, até que os pais dele conseguiram sair do sufoco e buscaram o menino.
Os anos se passaram com tristezas e alegrias, derrotas e vitórias, e Ronaldo só voltou a estudar com 18 anos de idade. Hoje com 23, trabalha e estuda. Logo vai se juntar com sua namorada que está grávida de cinco meses.
Olha no relógio, agarra a marmita e se lança madrugada á fora. Depois de entrar e sair de vielas e pequenas ruas sem asfalto, ele chega no local aonde seus patrões vão lhe pegar dali á dez minutos.
Olhos atentos na rua que a lua esqueceu de iluminar, senta na guia da calçada, acende um cigarro e enquanto aguarda o caminhão se põe a refletir.
A sua situação não é das boas. Os pais da sua namorada lhe pressionam, sua mãe vive batendo cartão no hospital, sempre doente. O dinheiro que recebe dos japoneses vai para a água, luz e o aluguel. E o enxoval da criança nada. Vários são os convites para entrar na vida bandida, bem que não repugna esse meio de vida, mais dia menos dia acaba aceitando o convite. A polícia rouba, os políticos também, só ele é que é o otário.
Quando ia dar sua quarta tragada no cigarro notou uma luz vermelha indo e vindo, qual fossem as luzes de uma ambulância. Mas não, é uma viatura.
Ronaldo cospe no chão, sabe que estão indo pegar dinheiro lá na boca de fumo, e não pra fazer sua segurança como diz o apresentador de um telejornal sensacionalista.
A viatura passa devagar, Ronaldo não abaixa a cabeça, prefere mostrar o rosto, além do mais não tem como esconder a sua cor. O motorista pára, três policiais descem da viatura, um deles com a mão no coldre manda Ronaldo ficar de pé e caminhar até a viatura com as mãos ao alto. Ele odeia ser revistado, ainda mais por policiais que metem a mão com voracidade no seu saco, parecendo que vão arrancar pra fora da calça.
- Ta fazendo o que aqui?
- Esperando um caminhão, sou feirante.
- E esse cheiro?
- É cigarro.
- Que cigarro o quê, um preto feio desse jeito á essa hora na rua, e dizendo que é feirante, entra na viatura.
Ele tentou mostrar o cigarro aceso e a marmita no chão, mas um tapa no rosto o fez calar.
- Entra logo vai.
Quando ergueu o pé direito para subir na traseira da viatura foi empurrado e recebeu um saco preto na cabeça.
- Se tirar isso vai morrer.
O motorista deu a partida e saiu. Ronaldo tentava ver, mas nada conseguia, já imaginava o seu corpo sendo achado no meio do mato. Após alguns minutos o carro parou, uns instantes de conversas e novamente a viatura voltou a andar. Ronaldo sabia que ainda estava em seu bairro, o sacolejar do seu corpo é constante, conhece os buracos de cada rua e ouviu quando o motorista reclamou:
- Esses filhos da puta não têm o que fazer e ficam inventando essas lombadas.
A viatura voltou a parar depois de vinte minutos. Um policial abriu a porta traseira e mandou Ronaldo descer. Ele pensou em reagir, não iria morrer assim á toa. O policial tirou o saco da cabeça e o mandou correr. Ele ficou inerte. Morrer correndo não. O PM insistiu:
- Vai caralho, quer morrer?
Ronaldo começou a correr. E ficou aliviado quando olhou pra trás e viu a viatura indo embora.
Aos poucos diminuiu a velocidade e começou a andar. Pegou na carteira o cartão telefônico e procurou um orelhão. Passou por seis, mas só deu sorte no sétimo.
- Tanto telefone nas ruas pra só um funcionar.
Quando tirou o telefone do gancho e introduziu o cartão, viu que não aparecia às unidades, ia retirar e colocar de novo, mas o telefone havia engolido o seu cartão. Preferiu não quebrar o aparelho, isso não iria trazer o seu cartão de volta. Mas tinha que ligar para o celular do seu patrão e avisar o ocorrido, sabia que ele poderia pensar que Ronaldo se atrasou e demiti-lo no ato.
Preferiu ir pra casa, nessas horas o melhor é ser paciente. Mas quem é que tem paciência depois de levar tapa na cara e ter passeado com a polícia logo de madrugada?
Ronaldo sempre é perseguido, quando não é pela polícia que sempre o enquadra, é pela depressão. Depressão que amarra sua garganta e faz cair lágrimas dos seus olhos.
O pai faleceu á quatro meses atrás, vítima de bala perdida. A namorada está grávida, a mãe doente, um emprego sem exploração ainda é um sonho.
Chegou em casa e esperou dar oito horas. Não respondeu a pergunta da sua mãe que surpresa de sua presença perguntou:
- Ué, em casa essa hora filho, não teve feira hoje não?
Ás oito ele saiu de casa, entrou numa viela, cortou a direita, desceu a rua de terra e apertou a campanhia duma casa com portão de madeira. Quando foi atendido pelo seu colega, explicou o ocorrido e pediu para usar o telefone.
A voz do seu patrão foi áspera e cheia de sotaque, e o que ele falou não foi diferente do que Ronaldo pensou. Estava demitido. Não interessa o que aconteceu, por causa dele o casal de japonês chegou atrasado no local da feira e não houve como montar a barraca.
Ele saiu da casa do colega com a cara fechada, nem atendeu ao cumprimento do seu Florêncio, dono de um bar no bairro.
Chegou em casa decidido. Abriu a gaveta da velha cômoda e pegou uma arma 38 de cano longo que pertencia ao seu pai. Esperaria até a noite para agir. Não iria para a escola, que se foda os alunos que só vão para a escola pra fazer peso. Danem-se os professores que não querem nada com nada. Que se foda todos e todas.
No seu interior havia dois sentimentos únicos. Um era o sentimento bomba e o outro era o sentimento doce. Mas acionaram o sentimento errado, acenderam o rastilho, e agora segura que o pacífico homem bomba explodiu.

Sacolinha

FONTE: http://www.recantodasletras.com.br/contos/15410